Kyabje Dzongsar Khyentse Rinpoche
Peregrinação

Seus Aspectos Externos, Internos e Secretos
Kyabje Dzongsar Khyentse Rinpoche
De acordo com o budismo, a peregrinação têm algo a ver com sair de sua zona de conforto. Não é empreendida para que você possa tirar uma fotografia e, então, pendurá-la em algum lugar. Vá somente para fora de sua zona de conforto. Isto é o que é importante!
Quando dizemos “zona de conforto” não estamos falando somente sobre nosso quarto de dormir, nossa sala de estar, as paredes ou o parapeito de nossa casa. Estes se referem à zonas de conforto externas. Eu estou falando sobre algumas sérias zonas de conforto como, por exemplo, a razão. A razão é uma das zonas de conforto que temos. Lógica é uma zona de conforto. Identidade é uma zona de conforto. Nacionalidade é uma zona de conforto. Gênero sexual também é uma zona de conforto.
Sabe, nós, eu, por exemplo. Eu quase fico apreensivo só de pensar “Oh, talvez eu seja uma mulher!” (risos). É quase impossível, especialmente como um monge tibetano, até mesmo pensar em experimentar um daqueles comprimidos para fazer crescer os seios (risos). Ou fazer uma operação (risos). É muito assustador ir além de minha lógica, de minha própria zona de conforto. É assustador!
Aqui estou falando de uma verdadeira exploração. Uma verdadeira, real peregrinação.
Ok. Então nos perguntamos: “por quê deveríamos fazer uma peregrinação? Por quê deveríamos explorar? Por quê deveríamos exercitar a incerteza? Por quê deveríamos ir para além de nossa zona de conforto? Nós somos perfeitos...aqui e agora é o que faz sentido. Por quê deveríamos sair de cenário e explorar o que não têm sentido? Basicamente, por quê devereríamos ir para uma peregrinação?”
O termo tibetano para “seres senscientes” (tib. sems can) refere-se “àqueles possuidores de mente”. Seres senscientes são também chamados de “Drôua” (tib. ‘gro ba). “Drôua” significa “migrante”. Refere-se à alguém que move-se o tempo inteiro. Assim, se você e eu somos “Drôua” talvez somos como uma pequena pena ao vento. Nós não conseguimos ficar somente em um lugar. Nós não temos controle. Mesmo que desejássemos estar em um lugar só, de verdade, não conseguimos. É como uma pequena pena que o vento carregará. Mais adiante irá pousar em algum lugar e, então, quando o próximo vento soprar, irá novamente para algum outro lugar. Agora, se olharmos para cada aspecto de nossa vida, veremos que somos como uma pena. Talvez você tenha uma família neste momento. Talvez o que aconteceu foi de que o seu vento kármico o soprou para este pouso. Mais cedo ou mais tarde, você irá ser soprado para longe novamente, de sua família, de sua identidade, para outra.
Estas são grosseiras. Mais importante, as transmigrações sutís. Por exemplo, o nosso humor nesta manhã. [Rinpotche pergunta à audiência:] De bom humor esta manhã? (risos) Tal como uma pena! Está prestes a soprar para um mau humor! Provávelmente já está! (risos) E mesmo se você desejar agarrar-se em um certo lugar de pouso, uma certa zona de conforto, parece que você pode agarrar-se em tais filosofias idealísticas, religião, família, relacionamentos – todos estes são como quando você está caindo de um precipício e dá um jeito de momentariamente agarrar um chumaço de grama... este se desprenderá.
Mas o problema é que, para com qualquer transmigração, esta se dá de forma aparentemente lenta. E também nos traz uma falsa esperança. É como tentar colocar três morangos um em cima do outro. O fato de que o segundo morango está colocado sobre o primeiro é uma notícia ruim. Isto porque faz com que você pense que o terceiro será também possível.
Algumas vezes, mesmo o terceiro permanece sobre o segundo momentariamente. Apartir disso, falsas esperanças aumentam nossas expectativas e, devido a isso, nunca conseguimos sair desta atitude transmigradora. Tenho certeza que a maioria de nós aqui, incluindo eu, se realmente nos perguntassemos, talvez a maioria de nós iria dizer “Eu ainda não vivi propriamente”. Nós todos estamos sob o processo de preparativos para viver propriamente um dia, em algum lugar – e isto ainda não aconteceu.
Desta forma, o propósito da peregrinação é, na verdade, acelerar tudo isto e fazê-lo sob o seu controle. Defrontar-se com desconhecido. Encarar de frente o além-da-zona-de-conforto voluntariamente. Este tipo de exploração é sobre o qual estamos falando.
Este é o tipo de filosofia da peregrinação. Para aplicar esta filosofia em ação, agora, iremos falar sobre o Caminho.
Continua....
(Trechos dos Ensinamentos sobre Peregrinação de Dzongsar Khyentse Rinpoche. Rio de Janeiro, Brasil – Dezembro de 2008)
