*Depoimentos sobre Peregrinação
Depoimentos de várias tradições religiosas sobre Peregrinação
* no budismo, temos a mestra brasileira Monja Coen Sensei

"Há milênios o ser humano peregrina a locais sagrados.
Saiba quais são as motivações, as dificuldades e as
experiências vividas ao longo de uma jornada de fé rumo ao Divino".
Não importa se os pés têm bolhas, se as costas doem ou se a roupa está suada e suja. Quando chega ao fim de sua jornada, o peregrino experimenta uma sensação incomparável: o cansaço físico dá lugar a uma leveza de espírito sem igual. Na bagagem, aprendizados, descobertas e uma fé muito mais vívida, depois de ter sido colocada à prova a cada passo. O viajante não é mais o mesmo indivíduo que dias antes saiu de casa para empreender uma visita a um santuário ou trilhar um caminho tido como sagrado. "Ele se lançou ao desafio de encontrar o microcosmo e o macrocosmo dentro de si", diz o chanceler da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Aparecida, padre Paulo Tadeu Gil Gonçalves Lima. Ou seja, pôs sua alma para se exercitar e dialogar com o mundo exterior. Por isso, transformou-se.
As peregrinações estão presentes na história da humanidade desde tempos imemoriais. "Perdeu-se nos séculos o momento em que o homem saiu, pela primeira vez, em busca daquilo que lhe era sagrado", diz o professor de Teologia Edin Sued Abumansur, da PUC de São Paulo. Talvez a mais remota jornada da qual haja um registro escrito tenha sido aquela que o patriarca bíblico Abraão realizou, quando deixou a cidade de Ur para lançar-se no deserto e assim atender aos desígnios de Deus. Mas viagens transformadoras, impregnadas de fé e de sentido mítico, estão presentes na história da maioria das religiões. Na Grécia Antiga, por exemplo, os fiéis viajavam para buscar respostas nos oráculos. No Catolicismo, a peregrinação tomou forma a partir do ano 600, na Alta Idade Média. Naquela época, a visita a relíquias de santos popularizou-se pela Europa, atraindo os que procuravam fortalecer-se com o poder emanado pelos despojos de homens exemplares. Contudo, havia também quem peregrinasse para expurgar os próprios pecados. Em 2000, considerado "ano santo" pela Igreja, o papa João Paulo II conclamou os fiéis católicos a visitarem pelo menos um santuário para alcançar as indulgências plenárias. Calcula-se que só o Vaticano tenha recebido 30 milhões de viajantes.
Manual do viajante
"Quando os monges budistas saem em peregrinação ou à procura de um mosteiro ou de um mestre, carregam o mínimo necessário: um livro de sutras (ensinamentos), os papéis da linhagem a que pertencem, uma muda de roupa e tigelas para mendigar e se alimentar", diz a monja Coen, lider da Comunidade Zen Budista de São Paulo.
Com esses pertences reduzidos estão preparados para tudo o que o caminho oferece. Por isso, o primeiro conselho ao peregrino é levar pouca bagagem. "A mochila tem de ser bem leve para não se tornar um estorvo, principalmente porque o caminhante também está transportando um peso invisível, que é o das suas preocupações e expectativas", diz Eliseu Labigalini Jr., dirigente da Igreja Céu da Mantiqueira, do Santo Daime, que há sete nos organiza uma peregrinação para Aparecida do Norte.
Boa opção são roupas especiais para caminhada, em pequena quantidade, que secam rápido, têm tecnologia para esquentar e refrescar e fazem pouco volume. Um cajado é sempre útil para aliviar o peso do corpo. Além disso, para aproveitar bem a jornada, é importante que o peregrino leia a respeito do trajeto, informe-se com quem já foi e pergunte a si mesmo o que de fato está buscando.
Assim, prepara a mente e o espírito para a viagem. "A peregrinação também é um processo de cura dos afazeres do cotidiano, além de uma oportunidade de rever o projeto de vida", diz o chanceler da Cúria Metropolitana de Aparecida, padre Paulo Tadeu Lima.
DEPOIMENTO
Estava em Lisboa e fui ao Santuário de Fátima. Quando cheguei ao local da aparição de Nossa Senhora, uma força me derrubou, caí de joelhos e comecei a chorar. Chorei muito e depois me senti acolhida pela Virgem Maria e fiquei muito feliz. Eu tinha acabado de receber o abraço e o conforto da Mãe e fiquei com vontade de abraçar e beijar todo mundo. Naquele momento, agradeci por tudo. por estar presente naquele lugar. Me senti abençoada pela mãe de Jesus."
Mônica Regina Peralta, professora de Educação Física
Pé na estrada!- o caminho
A viagem deve ser encarada como uma instigante surpresa. "Na autêntica romaria brasileira, os participantes vêem a peregrinação como uma oportunidade de reencontrar amigos e fazer novos. Por isso, ela contém uma boa dose de espírito de fraternidade", afirma o antropólogo João Batista Borges Ferreira, professor da USP e da Universidade Mackenzie de São Paulo. Desprendimento é palavra de ordem. É preciso soltar as amarras internas para experimentar essa vivência social e, em seguida, outras ainda mais profundas. "A peregrinação é um ritual de morte e renascimento", afirma o médico e psicoterapeuta Augusto Capelo. Segundo ele, se a pessoa permitir, a cada passo ela se desliga dos problemas e se concentra cada vez mais em si própria, tornando-se receptiva às transformações. Ao se entregar para o caminho, o peregrino abaixa seu grau de exigência interna e recebe apenas o que o trajeto lhe apresenta, restaurando sua intuição e compreendendo que não há o que temer. Basta atenção. O viajante está inteiro, portanto, no momento presente, e o passado e o futuro perdem importância. "Concentração na respiração e no caminhar são cuidados que ajudam no aprendizado de focar no aqui e agora", diz a monja Coen, da Comunidade Zen Budista de São Paulo. Assim, o peregrino se lança ao encontro com sua face mais verdadeira e começa o processo de restauração interior ao abandonar sentimentos em desuso para adquirir novas qualidades. Como disse o estudioso Joseph: "E onde imaginávamos estar sozinhos, estaremos de fato com o mundo inteiro."
DEPOIMENTO:
Durante o Caminho de Santiago, fiquei com tendinite no ombro, no joelho e no tornozelo. Sentia muita dor. Busquei dentro de mim uma força que eu sabia que tinha. Também resgatei momentos difíceis da minha vida em que precisei ser muito forte e continuei a caminhada com essa energia. Além disso, cantei, cantei muito. Fui recompensada com bênçãos e proteção divina e essa experiência me ensinou a ajudar os outros, mesmo que seja apenas com uma palavra de conforto."
No meio do caminho havia uma pedra - As dificuldades
Toda peregrinação traz algum incômodo. Pode ser o peso da mochila, o calor ou o frio, a chuva, a exaustão física, o medo de perder-se etc. Manter-se firme no objetivo da jornada ajuda o caminhante a sentir-se mais forte e disposto. "Quem estiver atento perceberá que as dificuldades da peregrinação mimetizam os obstáculos do dia·a·dia", diz o rabino Alexandre Leone, da Congregação Israelita Paulista. De acordo com o padre Paulo Tadeu Lima, da Cúria Metropolitana de Aparecida, o desconforto nos ajuda a deixar para trás o peso das preocupações, dos ressentimentos, da raiva e de tudo o que torna a nossa vida tão pesada. Para não se distrair e perder o ensinamento que a peregrinação oferece, os hindus entoam mantras enquanto andam e os budistas se concentram na respiração.
Assim, o trajeto é feito com leveza, como um exercício de meditação, abrindo espaço para novas sensações."Quando caminhamos, lembramos que temos um corpo repleto de articulações. Trata-se de uma engenhosa máquina para a qual nem ligamos no cotidiano", diz o peregrino Almiro José Grings, criador do Caminho da Fé, que vai de Tambaú até Aparecida do Norte, em São Paulo. É importante que o viajante não veja a jornada como um fardo. "Sacrifício significa sacro ofício, um trabalho sagrado. Encarar as dificuldades como algo pelo qual devemos passar torna a viagem mais prazerosa", afirma o daimista Eliseu labigalini Júnior, da Igreja Céu da Mantíqueira. Por isso, ensina um antigo provérbio árabe, "não é a estrada adiante que o faz desanimar. É o grão de areia no seu sapato".
DEPOIMENTO
Me converti ao Islã há dois anos e este ano participei do meu primeiro Hajj. Essa peregrinação me transformou. Me sinto mais próximo de Deus e sou grato por Ele ter me dado a oportunidade de apagar meus erros anteriores. Senti que fui perdoado e que lapidei a minha fé. O Hajj me ensinou também a compreender com o coração o sentido da oração. Também perdi o medo do mundo. Não temo mais nada porque confio em Deus e sei que Ele não me abandonará."
Os muçulmanos, por sua vez, revivem o trajeto trilhado por Abraão no deserto até o ponto em que ele e o filho Ismael construíram a Caaba, o templo máximo do Islã. A jornada anual a Meca, na Arábia Saudita, chama-se Hajj. Peregrinar até a primeira casa de Deus é reiterar a obediência a Allah e compreender que todos são iguais perante Ele. "No Hajj lapidamos nossos valores e nos renovamos, compreendendo o significado profundo das prioridades da vida", diz o sheik Jihad Hammadeh, vice-presidente da Associação Mundial da Juventude Islâmica no Brasil.
No Judaísmo, a peregrinação dos fiéis esteve sempre muito ligada ao Templo Sagrado - o "único local de reverência a Deus", na concepção judaica, erguido em Jerusalém por volta do primeiro milênio antes de Cristo. Segundo o rabino Alexandre Leone, da Congregação Israelita Paulista, era lá que os judeus se apresentavam diante da face de Yahweh três vezes por ano, no Pessach (Páscoa), no Shavuot (Pentecostes) e no Sukot (Festa dos Tabernáculos). O Templo foi destruído há quase dois mil anos e o que restou dele é o Muro das Lamentações. Hoje, os judeus visitam-no, mas também empreendem viagens à tumba dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, sepultados na Gruta de Makhpela, em Hevron, Israel, ou a túmulos de importantes rabinos, como Nachman de Braslav, na Ucrânia. "O ser humano vive adormecido e precisa acordar para entender quem ele é em sua essência. A peregrinação leva a esse despertar", diz o rabino Leone.
Sidarta Gautama também trilhou um longo caminho - espiritual e material até encontrar um lugar adequado onde pudesse praticar a meditação de tal forma a alcançar a iluminação. "O ser humano, religioso ou não, necessita encontrar-se com o Sagrado e há locais que abastecem essa busca", afirma a monja Coen, líder da Comunidade Zen Budista de São Paulo. Segundo ela, a despeito de cada crença, o que transforma o lugar em centro de peregrinação - seja um templo, uma vila por onde Buda passou ou uma montanha - é seu campo energético. A subida ao Monte Fuji, no Japão, por exemplo, conecta o caminhante com a atmosfera sagrada dos antigos oráculos que estavam instalados ali e eram procurados por peregrinos e samurais. No Hinduísmo, ir a um santuário é empenhar-se na apropriação de si mesmo. "Há locais que potencializam a divindade que cada um de nós carrega", diz Carlos Eduardo Barbosa, professor do Instituto Narayana, de São Paulo. Este é o motivo pelo qual dois terços da população indiana gastam entre 60 e 80 dias por ano em viagens a esses lugares.
Para os adeptos do Santo Daime, a proximidade com as forças da floresta favorece o reencontro com o "eu" íntimo. Por isso, a igreja daimista Céu da Mantiqueira, da cidade mineira de Camanducaia, organiza uma caminhada até a paulista Aparecida do Norte, na qual os seguidores da doutrina consagram a ayahuasca, o chá de propriedades psicoativas usado nos rituais. "O trajeto é uma oportunidade de fazermos um retiro e entrarmos em contato com a força divina da criação na natureza e do poder do feminino contido nela", diz Eliseu Labigalini Júnior, dirigente da Céu da Mantiqueira.
Não importa, portanto, qual foi o santuário escolhido pelo peregrino - Santiago de Compostela, na Espanha, Varanasi, na Índia, Jerusalém, em Israel... Nem a crença que o estimulou a pôr os pés na estrada. A chegada é sempre uma conseqüência do caminho, por mais óbvio que isso possa parecer. Afinal, o deslocamento proporciona a vivência de uma invisível teia de transformações. Aos poucos, o viajante vai limpando a mente e o espírito. A mochila fica mais leve do peso das preocupações comezinhas, dos caprichos e dos prazeres imediatos. "As pessoas precisam sair do próprio mundo para enxergar algo que não vêem normalmente, já que estão enterradas no cotidiano", diz o teólogo Edin Abumansur. "Por isso, os lugares sagrados ou místicos ficam necessariamente longe de casa." Para ter uma experiência pessoal do Sagrado, porém, é necessário correr riscos, aprender a contemplar os detalhes do mundo ao redor e saber comover-se. Como ensinou o sábio Gautama Buda: "Você não pode percorrer o caminho sem antes transformar-se no caminho."
E daqui para a frente? As descobertas
É incrível como o peregrino constata que viajou tão longe para chegar a algo que estava, muitas vezes, tão perto dele. Afinal, o trajeto percorrido pode ser comparado a um processo de cura. Passo após passo, dia após dia, o caminhante experimenta chacoalhões. Todas as privações a que tem de se submeter, como comer pouco, dormir em pousadas muito simples e lidar com uma quantidade de dinheiro limitada, funcionam como elementos de purificação. "O peregrino expurga tudo o que não precisa e conserva apenas o que, de fato, é essencial. Depois, aplica essa experiência na sua vida prática", diz o teólogo Edin Abumansur, da PUC-SP.
Uma das mais valiosas descobertas da peregrinação é o aprendizado de aceitar as pessoas como elas são, sem prejuízo de si mesmo. E mais: aceitar também a si mesmo, do jeito que é, com suas qualidades e limitações. "Quando chega ao seu destino, o peregrino experimenta o que seria o amor divino. Ele descobre o amor a si próprio, ao semelhante, à natureza e a Deus", diz o padre Paulo Tadeu Lima, da Cúria Metropolitana de Aparecida do Norte. Nenhum homem é maior que seu destino. E nenhum destino é tão pesado que um homem não aprenda a suportá-lo. Trata-se de uma revelação fundamental para o peregrino; ele descobre que é bem maior que seus próprios receios e fraquezas. Mas o retorno nem sempre é fácil. Diante de tantas descobertas, a sensação do viajante é de que o tempo passou de um jeito diferente para ele e para aqueles que ficaram. De volta ao lar, começa uma outra etapa: a da partilha e a da paciência. Boa jornada!
CENTROS DE PEREGRINAÇÃO:
1 - MECA, ARÁBIA SAUDITA
2 - JERUSALÉM, ISRAEL
3 - MONTE FUJI, JAPÃO
4 - ALAHABA, ÍNDIA
5 - LOURDES, FRANÇA
6 - MONASTÉRIO DE SERGIEV POSAD, RÚSSIA
7 - JUAZEIRO DO NORTE, BRASIL
8 - APARECIDA DO NORTE, BRASIL
9 - MONTE SINAI, EGITO
10 - VARANASI, ÍNDIA
11 - KATMANDU, NEPAL
12 - MONTE KAILASH E LAGO MANSOROVAR, TIBETE
13 - MONTANHA WUDANG, CHINA
14 - ILHA DE SHIKOKU, JAPÃO
15 - MEDJUGORGE, BÓSNIA
16 - VATICANO, ITÁLIA
17 - ASSIS, ITÁLIA
18 - FÁTIMA, PORTUGAL
19 - COMPOSTELA, ESPANHA
20 - HEVRON, ISRAEL
Roberto De Lucca - Revista das Religiões
