Sua Santidade Gyalwang Drukpa


Pad Yatra – Instruções Essenciais sobre Peregrinação
Por Sua Santidade Gyalwang Drukpa
Maio/junho de 2009 – Uma Jornada Espiritual pelos Himalayas

1. Pad Yatra (tib. gnas skor)

Yatra é um termo sânscrito que significa "Jornada", "Procisão" ou "Peregrinação". Já o sânscrito "Pad Yatra" geralmente refere-se a uma peregrinação à locais sagrados.
"Caminhar sobre a Terra nos ajuda a construir uma genuína relação com a natureza, para com a natureza de nossa Mãe Terra."

Uma peregrinação caminhando não é algo incomum entre os seguidores das diversas tradições espirituais. Hindus caminham a diferentes lugares sagrados relacionados com suas deidades, tais como Shiva, Krishna e outros; Peregrinos Cristãos caminham de suas casas até Jerusalém; Mulçumanos caminham até Mecca; e peregrinos Budistas caminham a diferentes lugares sagrados abençoados pela presença de Buddha e da geração subsequente de mestres iluminados.

Uma das principais razões para se fazer uma peregrinação à lugares sagrados é criar uma conexão com a nossa própria natureza inata e iluminada através da acumulação de mérito e sabedoria. Mérito é acumulado através do manter nossa mente livre das emoções ego-centradas ao mesmo tempo que engajadas no viver através da presença consciente e, por final, dedicando esta felicidade provinda da liberdade e presença consciente à todos os seres em sofrimento.

Sabedoria é acumulada através do contemplar a vastidão da natureza e manifestação de todas as coisas. Do entendimento de nossa habilidade em utilizar nosso corpo humano para experienciar a beleza desta natureza e a natureza de nossa própria mente engajada.

No dia-a-dia de nossa vida movimentada, damos pouca atenção a detalhes e aproveitamos rapidamente as chances que nos aparecem sem prestar atenção ao ambiente e seres ao nosso redor. Precisamos oferecer à nossa vida agitada uma pausa. Enquanto que um carro pode levá-lo muitos quilômetros no período de uma hora até um destino físico, seus pés podem levá-lo muito mais próximo de sua morada espiritual, trazê-lo de volta para sua verdadeira casa.

2. Transformação da Mente (tib. sems 'gyur)

Uma Pad Yatra é um método verdadeiro de purificação. Uma grandiosa e rara oportunidade de acumulação de méritos.

O próprosito essencial de se fazer uma peregrinação é a “transformação da mente” (tib. sems ‘gyur).

Como esta se dá?

• Compreensão e Recordação (tib. dran pa dang rtogs pa)

Recorde-se da preciosidade de tais lugares os compreendendo como verdadeiramente “sagrados”. Sinta-os em seu coração como sagrados. Lembre-se de que extraordinários seres passaram por tais lugares e os abençoaram, os empoderaram.

• Mente Elevada (tib. lhag sems)

Cultive uma mente elevada, uma percepção superior, um coração espiritual. Vendo todos seus companheiros de caminhada como a sangha, ou seja, a comunidade elevada dos aspirantes à virtude – sangha dos mendicantes detentores da extraordinária conduta dos Buddhas; a comunidade elevada de Corajosos Heróis – sangha dos bodisatvas femininos e masculinos detentores do coração da vasta compaixão dos Bem-aventurados e; a comunidade elevada de aprofundados meditantes - sangha de yoguinis e yoguis, dentetores da visão profunda e poderes espirituais de todos os Conquistadores.

Percebendo todos os outros como sendo manifestações do Guru, fonte de todos os refúgios, estaremos despertando nosso coração espiritual, cultivando uma mente elevada, deixando nascer naturalmente uma percepção superior – a visão pura.

• Intenção, Motivação e o Caminho da Aspiração (tib. sems bskyed kun slong dang smon lam)

Ao começar uma yatra, inicie gerando a intenção (tib. sems bskyed) de atingir o despertar para o benefício e liberação de todos os seres (skt. boddhitchitta).
Antes de dar os primeiros passos, dê nascimento à motivação (tib. kun slong) de realizar tal yatra para que possa acumular méritos e sabedoria e realizar suas aspirações mais profundas. Com base na intenção de bodhitchitta e na sua motivação do Dharma, cultive o “Caminho das Aspirações” (tib. smon lam), onde você oferece na forma de preces, orações e desejos auspiciosos suas mais profundas aspirações e dedicações de mérito.

Comece pela contemplação de samsara, da sua situação e da situação dos seres, onde todos buscam felicidade e não querem sofrer. Reconheça o Dharma do Buddha como um remédio para ignorância de todos os seres, você incluído. Reconheça os tempos afortunados onde o dharma está presente e vivo no coração de muitos seres, regozije pelo fato da presença viva da comunidade daqueles que preservam vivos os ensinamentos do Buddha até os dias de hoje. Gere a aspiração de tornar-se um destes seres, manifestando compaixão e sabedoria frente ao sofrimento e confusão do samsara. Gere a aspiração de se tornar um grande arhat, um bodisatva, um yogui, e por fim um Buddha completamente iluminado, para benefício de todos estes seres.
Durante a Yatra lembre-se constantemente de sua intenção, motivação e aspirações dedicando o mérito de seu esforço jubiloso e do treinamento de sua mente para a realizacão das mesmas.

• Preliminares (tib. sngon ‘gro)

Pad Yatra é uma verdadeira, grandiosa e rara forma de purificação de faltas e restauração do treinamento como também da motivação (tib. gso sbyong). É um veículo poderoso para reunir os dois tipos de acumulação (tib. tshogs gnyis) – a acumulação de méritos e a acumulação de sabedoria.

Quando empreendida desta forma, torna-se um verdadeiro “Ngondro” ou uma prática preliminar onde purificamos karma e reunimos os dois tipos de acumulação de mérito e sabedoria.

A peregrinação pode ser feita como um “ngondro” quando, internamente, através do recitar e da visualização, aplicamos as sadhanas das quais fomos instruídos. Podemos fazer uma sadhana concisa, como por exemplo, a forma concisa que compilei de nosso ngondro Drukpa ou o “Dudjom Tersar Ngondro” dependendo da transmissão e instruções que vocês receberam. Pode-se também realizar-se uma sadhana mais longa, para àqueles que já estejam familiarizados com alguma.

Uma forma de se empreender tal prática durante a peregrinação seria:

a) Da manhã ao meio-dia, praticar-se o refúgio e boddhichitta.
b) Do meio-dia ao entardecer, oferenda de mandala e Vajrasatva
c) À noite Guru Yoga

Dependendo de cada um, poderia-se também empreender somente uma destas práticas, com somente refúgio e boddhichita, somente vajrasatva ou guru yoga. Pode-se também fazer outros tipos de acumulação de mantras referentes as transmissões e instruções que tenha-se recebido. Também, para aqueles que tenham recido as instruções sobre Mahamudra ou Dzogchen, estes podem aplicar tais métodos durante sua peregrinação como também simplesmente repousar tranquilo e presente durante cada passo, cada instante de sua caminhada fazendo sua prática de shamata. Contemplar e refletir sobre a natureza de samsara e do dharma, gerar a visão elevada é a prática de vipassana durante nossa jornada espiritual.

Fazer preces de aspiração e dedicação, lembrando constantemente de nossa situação e da situação de todos os seres em samsara, aspirando atingir a iluminação para benefício de todos, é de fato uma grande, rara e preciosa oportunidade de treinar a mente, purificar o karma e acumular méritos.

• Transformando as situações difíceis

A peregrinação é para ser empreendida como uma “prática espiritual”. Durante a peregrinação, quando quer que venhamos a nos perder em nossos padrões e hábitos kármicos em corpo, fala ou mente, nos recordamos do Guru, fonte de todos os refúgios; nos recordamos da sangha, fonte da presença do Dharma entre nós hoje; nos recordamos do Dharma, a sabedoria dos Despertos; e nos lembramos do Buddha, a fonte de todos os Vitoriosos. Geramos novamente uma fé inabalável e retornamos à nossa prática.

• Paramitas (tib. pa rol tu phyin pa)

Durante a peregrinação, encontraremos oportunidades perfeitas para a prática das seis transcendentais (tib. pa rol tu phyin pa drug) - generosidade, disciplina ética, paciência, perseverânça, estabilidade mental e sabedoria.

Nos defrontaremos com inúmeras circustâncias convientes à pratica da genorosidade com nossos companheiros de peregrinação, com aqueles em necessidade que encontrarmos pelo caminho e com a própria natureza, a mãe terra. Nos posicionaremos de forma ética perante nossos irmãos de sangha, respeitando cada um e cada ser, o compreendendo em seu contexto como também reconhecendo sua natureza búdica. Praticaremos paciência conosco e com nosso próximo. Com vigor aplicaremos as instruções recebidas de nosso mestre e buscaremos reunir as causas e condições para a iluminação e para beneficiar os seres. Cultivaremos estabilidade mental, estando atentos a cada passo, a cada instante. Treinaremos nossa visão e experiência através da reflexão e meditação.

Entre estas seis, a partir da perspectiva de “aplicação” ou “engajamento” das mesmas, é importante reconhecer que a paramita da perseverança, ou a perseverança transcendental, manifesta-se como o “motor” de todas as outras. Sem perseverança, vigor e diligência no caminho nosso engajamento nas paramitas torna-se flutuante e sem resultados significantes para nosso progresso espiritual.

Durante uma peregrinação podemos vir a passar por muitos momentos de cansaço, exaustão, aversão, desejos diversos, tédio e ausência de fé e devoção. Talvez teremos vontade de desisitir ou de retonar para casa. Entretanto, devemos recordar-se do frutos positivos do caminhar e do resultado final da prática, recompondo nossa motivação, nossa energia, perseverando em nossa jornada.

Ainda assim, podemos vir a ter dificuldades em nos recompor, em manter nossa diligência frente as dificuldades. Neste momento, é importante lembrar que talvez esteja nos faltando a prática da paramita anterior, a paciência transcendental.

Cada uma das paramitas surge naturalmente como resultado ou na base de suas anteriores e é potencializada e aperfeiçoada a partir do cultivo de suas seguintes.

A acumulação de mérito se dá através do engajar-se nas cinco primeiras paramitas. A acumulação de sabedoria se dá no cultivo da última paramita – a sabedoria transcendental. O cultivo da paramita da sabedoria faz com que se aperfeiçoe as cinco primeiras paramitas. E o cultivo das cinco primeiras paramitas faz com que se desenvolva as causas para que sabedoria surja e se desenvolva. Todas estas tem como motor a paramita da perseverança. Esta surge naturalmente na base de sua precedente, a paramita da paciência.

A paramita da paciência, por sua vez, está intimamente ligada à nossa capacidade de aceitação, de flexibilidade e de repouso tranquilo. Conseguimos ser verdadeiramente pacientes quando estamos em paz. Paz é aquirida não somente através da prática da virtude e da ética, mas também através da compreensão correta da realidade tal como é. Quanto mais compreendamos diretamente a natureza das coisas ao nosso redor, a natureza dos enganos, emoções e ações dos seres que nos circundam, mais flexíveis estaremos e com maior aceitação acolheremos as circustâncias ao redor e situações que venhamos a nos defrontar.

Durante uma peregrinação iremos exercitar muito estes níveis de paciência, de flexibilidade com as situações desafiadoras que se apresentarem, de relaxamento e repouso tranquilo mesmo em meio à circustâncias adversas. No momento em que acolhemos as situações com um coração tranquilo e com uma visão profunda, não precisamos nos mover, mudar nossa direção ou nos dispersar através das ondas de nosso karma. Nos manteremos naturalmente e tranquilamente firmes na direção que estivermos seguindo, sem flutuações, sem esforço. A isto chamamos de vigor, diligência, perseverança natural e transcendente – a paciência transcendental ou kshanti paramita. Assim, quando reflito sobre “perseverança” não consigo disassociá-la da “paciência” como descrita anteriormente.

Por fim, para que realmente possamos ter a oportunidade e necessidade de aplicar tais práticas, teremos que encontrar desafios, passar por situações difíceis, que nos tragam desconforto, que nos tirem de nossas zonas de proteção. A peregrinação é uma ótima oportunidade para isso. Nela encontraremos diversas situações que nos causarão insatisfatoriedade e acionarão nossos venenos mentais. É nestes momentos que sentiremos a necessidade de aplicar verdadeiramente o Dharma e o Dharma se mostrará como um veículo real de liberação das nossas limitações internas e externas.

3. Resultado (tib. ‘bras bu)

Quando temos algo como objetivo a ser alcançado é importante tomarmos conhecimento das causas e condições que nos levarão a chegar à nosso objetivo. A peregrinação, quando aplicada seguindo as instruções do Dharma, torna-se um veículo que trará verdadeira liberação e reunirá as causas para uma futura iluminação. Os méritos gerados e a sabedoria cultivada através de uma Pad Yatra certamente abrirão em algum momento as portas para o despertar completo.

E, como diz o provérbio tibetano:

“Quando temos fome,
Temos que comer;
Quando comemos,
Temos que defecar;
Em uma peregrinação,
Inevitavelmente temos que peregrinar!”

(risos) Isto quer dizer, não há peregrinação se não fizermos o esforço de caminhar, de peregrinar, de aspirar e buscar chegar a tais lugares sagrados e prestar nossas homenagens. Não há peregrinação se não houver um mínimo de esforço e vigor empreendidos.

Sua Santidade Gyalwang Drukpa
Pad Yatra nos himalayas - maio/junho de 2009

(Ensinamentos sobre Pad Yatra de S.S. Gyalwang Drukpa durante a peregrinação caminhando liderada por Sua Santidade através dos Himalayas indianos. Traduzido do tibetano, organizado e compilado posteriormente a partir de anotações dos ensinamentos por Ngawang Tenphel (Gabriel Jaeger), maio/junho de 2009).